4º Ministro de Bolsonaro a deixar MEC, Milton Ribeiro pede demissão após denúncias de corrupção

Revelação de esquema envolvendo propina em barras de ouro e venda de bíblias encurtou passagem de Ribeiro pelo governo


Ribeiro durante cerimônia de posse, em julho de 2020, no Palácio do Planalto - Flickr/Palácio do Planalto

Milton Ribeiro pediu demissão do cargo de ministro da Educação nesta segunda-feira (28). Em carta direcionada ao presidente Jair Bolsonaro (PL), ele disse que vai deixar o cargo depois de vir à tona um suposto favorecimento de pastores na distribuição de verbas do ministério. O chefe do Ministério da Educação (MEC) está no centro do escândalo dos pastores lobistas na pasta desde a semana passada.


Na tarde desta segunda-feira, a CNN Brasil e o G1 obtiveram uma versão da carta escrita por Ribeiro a Bolsonaro. Ele diz que a decisão da saída do MEC é um "até breve" e termina o texto com o slogan eleitoral de Bolsonaro: "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos". Para ler a carta, clique aqui.


Mídia antecipou decisão

Diversos veículos, como os jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo, e os sites G1 e Metrópoles, afirmaram que Bolsonaro já havia tomado a decisão, convencido por aliados. As reportagens apontaram a "ala política" do governo como fonte da informação.


O Metrópoles afirmou que o substituto de Ribeiro deve ser Victor Godoy Veiga, secretário-executivo da pasta. O número 2 do MEC é o maior candidato a assumir o posto de Ribeiro, segundo o site.


Pouco antes do vazamento da carta, na manhã desta segunda (28), o pastor Silas Malafaia, um dos religiosos mais próximos a Bolsonaro, fez duras críticas a Ribeiro nas redes sociais. Ele escreveu que o ministro deveria ser demitido "para nunca mais voltar".


Foto com esposa na Bíblia usada para corrupção

Nesta segunda-feira (28), após uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo revelar a distribuição de bíblias com fotos do agora ex-ministro da Educação em evento da pasta, o titular do MEC afirmou que autorizou o uso de sua imagem para confecção de exemplares da obra.


“Autorizei em 2021 o uso de minha imagem para a produção de algumas bíblias para distribuição gratuita em um evento de cunho religioso”, disse Ribeiro em suas redes sociais.


Dois inquéritos estão na PF

No final da semana passada, a Polícia Federal abriu dois inquéritos para investigar as supostas irregularidades na liberação de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), órgão ligado ao MEC.


O primeiro deles foi aberto na Superintendência da PF no Distrito Federal e irá apurar as suspeitas apontadas em um relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) sobre distribuições de verbas do FNDE.


A outra investigação foi instaurada na sede do órgão, no setor que cuida de inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF), e tem como alvo o ministro Milton Ribeiro e a fala dele em áudio revelado pela Folha de S.Paulo.


"A pedido de Bolsonaro"

Na segunda-feira passada (21), uma reportagem da Folha divulgou um áudio em que o ex-ministro da Educação diz favorecer, a pedido do presidente Jair Bolsonaro, prefeituras de municípios ligados a dois pastores.


A divulgação da gravação foi um fato novo envolvendo a questão, que, segundo a CGU, era investigada desde o ano passado.


As denúncias foram recebidas pela CGU no dia 27 de agosto de 2021 e tratam de possíveis irregularidades que estariam ocorrendo em eventos realizados pelo MEC e sobre o oferecimento de vantagem indevida, por parte de terceiros, para a liberação de verbas do fundo. A apuração ocorreu entre os dias 29 de setembro de 2021 e 3 de março de 2022.


O órgão concluiu que agentes públicos não estavam envolvidos nas supostas irregularidades e enviou o caso para a PF, que abriu um inquérito criminal. Na quinta-feira (24), a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia autorizou a abertura de inquérito para investigar Milton Ribeiro.


O caso também é apurado na esfera cível pela Procuradoria da República no Distrito Federal. O Tribunal de Contas de União (TCU) vai realizar uma fiscalização extraordinária no Ministério da Educação.


"Cara no fogo"

Diante do suposto esquema de corrupção na distribuição de verbas do Ministério da Educação para prefeituras, Bolsonaro saiu em defesa de Milton Ribeiro e disse que “bota a cara no fogo” pelo pastor.

"O Milton, coisa rara de eu falar aqui: eu boto minha cara toda no fogo pelo Milton. Estão fazendo uma covardia contra ele", disse Bolsonaro, durante sua live semanal no Facebook, na quinta-feira (24).


De acordo com entrevistas de prefeitos, o esquema de negociação de recursos no Ministério da Educação esbarrava em compra de bíblias, pedidos de propina em ouro e fila de pastores para participar das negociações.


No total, pelo menos 10 prefeitos relataram a presença de pastores na intermediação de recursos ou no acesso direto ao ex-ministro da Educação depois que o esquema foi revelado pela imprensa.


Fonte: Brasil de Fato com edição ADUFOP