Consciência Negra IV

Atualizado: 18 de Dez de 2020

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Texto do livro HOMEM: SATÃ OU ANJO BOM? Leonardo Boff, Ed. Record, 220p, 2008.

Reescrito em formato de poema.

Contribuição anônima.

Meu irmão branco,

Minha irmã branca, meu povo:

Que te fiz eu e em que te contristei?

Responde-me!


Eu te inspirei a música carregada de banzo

E o ritmo contagiante.

Eu te ensinei como usar o bumbo,

A cuíca e o atabaque.

Fui eu que te dei o rock e a ginga do samba.

E tu tomaste do que era meu,

Fizeste nome e renome,

Acumulaste dinheiro com tuas composições

E nada me devolveste.


Eu desci os morros,

Te mostrei um mundo de sonhos,

De uma fraternidade sem barreiras.

Eu criei mil fantasias multicores

E te preparei a maior festa do mundo:

Dancei carnaval para ti.

E tu te alegraste e me aplaudiste de pé.

Mas, logo, logo me esqueceste,

Reenviando-me ao morro, à favela,

À realidade nua e crua do desemprego,

Da fome e da opressão.


Meu irmão branco,

Minha irmã branca, meu povo:

Que te fiz eu e em que te contristei?

Responde-me!


Eu te dei em herança o prato do dia a dia,

O feijão e o arroz. Dos restos que recebia,

Fiz a feijoada, o vatapá, o efó e o acarajé:

A cozinha típica do Brasil.

E tu me deixaste passar fome.

E permites que minhas crianças morram famintas

Ou que seus cérebros sejam irremediavelmente afetados,

Infantilizando-as para sempre.


Eu fui arrancado violentamente

De minha pátria africana.

Conheci o navio fantasma dos negreiros.

Fui feito coisa, peça, escravo.

Fui a mãe-preta para os teus filhos.

Cultivei os campos, plantei o fumo e a cana.

Fiz todos os trabalhos.

E tu me chamas de preguiçoso

E me prendes por vadiagem.

Por causa da cor da minha pele

Me discriminas e me tratas ainda

Como se continuasse escravo.


Meu irmão branco,

Minha irmã branca, meu povo:

Que te fiz eu e em que te contristei?

Responde-me!


Eu soube resistir, consegui fugir

E fundar quilombos:

Sociedades fraternais, sem escravos,

De gente pobre mas livre,

Negros, mestiços e brancos.

Eu transmiti, apesar do açoite em minhas costas,

A cordialidade e a doçura à alma brasileira.

E tu me caçaste como bicho,

Arrasaste meus quilombos

E ainda hoje impedes que

A abolição da miséria que escraviza

Seja para sempre verdade cotidiana e efetiva.

Eu te mostrei o que significa

Ser templo vivo de Deus.

E, por isso, como sentir Deus

No corpo cheio de axé e celebrá-lo

No ritmo, na dança e nas comidas.

E tu reprimiste minhas religiões

Chamando-as de ritos afro-brasileiros

Ou de simples folclore. Não raro,

Fizeste de macumba caso de polícia.


Meu irmão branco,

Minha irmã branca, meu povo:

Que te fiz eu e em que te contristei?

Responde-me!


Quando com muito esforço e sacrifício

Consegui ascender um pouco na vida,

Ganhando um salário suado, comprando minha casinha,

Educando meus filhos, cantando o meu samba,

Torcendo pelo meu time de estimação

E podendo tomar no fim de semana

Uma cervejinha com os amigos,

Tu dizes que sou um negro de alma branca,

Diminuindo assim o valor de nossa alma

De negros dignos e trabalhadores.

E nos concursos em igual condição

Quase sempre tu me preteres

Em favor de um branco.



E quando se pensaram políticas públicas

Para reparar a perversidade histórica,

Permitindo o que sempre me negaste,

Estudar e me formar nas universidades

E assim melhorar minha vida

E a de minha família,

A maioria dos teus grita:

É contra a Constituição,

É uma discriminação,

É uma injustiça social.


Meu irmão branco,

Minha irmã branca, meu povo:

Que te fiz eu e em que te contristei?

Responde-me!