Pesquisa no Amazonas aborda violência contra as mulheres na universidade

"Me chamaram de cabelo de bombril". Professora. "Por ser indígena, tive minha identidade questionada e minha inteligência também." Estudante. "Que mulher bonita não tem competência, é promovida por causa da beleza." Técnica.


Estes foram alguns dos depoimentos de mulheres que participaram da pesquisa “Violência contra as mulheres na universidade: uma análise nas instituições de ensino superior no Amazonas”, que contou com a participação de 1.166 pessoas das comunidades acadêmicas das instituições públicas de ensino superior do estado: Instituto Federal do Amazonas (Ifam), Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e a Universidade Federal do Amazonas (Ufam).


A pesquisa apontou que a violência contra a mulher é um problema crônico também no ambiente acadêmico. Das pessoas que relataram sofrer violências nas instituições, 73% são mulheres. Os resultados apontam também que, embora mulheres e homens sejam vítimas de violência, sua prática é predominantemente executada por homens, em um percentual que ultrapassa 85%.


Dos participantes, 65% são mulheres, 32% são homens e cerca de 2% se identificaram como de outro gênero. Do total, 38% afirmam que foram vítimas de algum tipo de violência no espaço universitário nos últimos cinco anos. Outros 83% avaliam que é provável a ocorrência de algum tipo de violência na universidade durante os próximos seis meses.


Formas de violência Os registros são variados, vão desde assédio moral e sexual, estupro a discriminação social, racismo, xenofobia, homofobia, lesbofobia e transfobia. Das respondentes que foram vítimas de violência, 24,39% sofreram assédio, incluindo, na internet; 16,11% sofreram humilhação; 11,96% sofreram assédio sexual, estupro ou importunação sexual; 5,17% foram ameaçadas; 3,91% sofreram discriminação social; 4,02% sofreram furto; 1,95% sofreram discriminação racial e 1,61% foram vítimas de lesbotransfobia.


Violência Institucional Um dos principais resultados apontados pela pesquisa diz respeito à violência institucional sofrida pelas mulheres no espaço acadêmico. De acordo com as pesquisadoras e os pesquisadores, as relações hierárquicas e o funcionamento sexista das instituições naturalizam vários tipos de violência, o que, consequentemente, dificulta sua apreensão por parte das vítimas.


A naturalização da violência também é um problema apontado pelo estudo. A sala de aula é considerada, pela maioria das e dos participantes da pesquisa, como o local mais violento para mulheres e homens na universidade. Os resultados apontam que grande parte das vítimas não oficializa denúncia e os motivos estão relacionados ao medo, à vergonha e às limitações dos canais institucionais de comunicação.


“As violências são múltiplas na universidade, desde as mais diretas até outras que, de tão naturalizadas, se confundem com a própria instituição. Nesse sentido, nossa pesquisa é uma contribuição para as universidades pensarem em políticas de segurança e proteção às mulheres e à comunidade acadêmica no geral. A sensação de insegurança e a violência são alarmantes e se colocam como impeditivos importantes para o sucesso nos projetos e carreiras acadêmicas e profissionais”, explica a coordenadora da pesquisa, professora da Ufam e diretora do ANDES-SN, Milena Barroso.


A pesquisa envolveu uma equipe multidisciplinar de pesquisadoras e pesquisadores, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e da Associação de Docentes da Ufam (Adua Seção Sindical do ANDES-SN). Cartilha e Livro Os resultados da pesquisa serão divulgados durante o mês de março, que concentra uma série de ações de resistência e luta das mulheres em todo o país. No final do mês, será divulgada uma cartilha com os dados que sintetizam as informações da pesquisa. A ideia é provocar a discussão mais ampla sobre a violência contra as mulheres nos espaços universitários, já que o Amazonas reflete uma realidade nacional.


“A pesquisa coordenada pela companheira, professora Milena Barroso, dialoga com as pautas do nosso sindicato e se aproxima de nossa luta contra o assédio na Universidade. Os dados confirmam aquilo que já lidamos no nosso cotidiano sindical e na realidade institucional: a violência contra as mulheres não se limita a espaços e perpassa todos os lugares, inclusive no espaço acadêmico e tem seus fundamentos nas relações desiguais de classe, raça e gênero”, explica Valmiene Farias Sousa, 2ª secretária da Adua Seção Sindical do ANDES-SN.


A Adua SSind disponibilizará a versão digital da cartilha do documento para download em seu site e distribuirá exemplares impressos para docentes da Ufam. Além disso, será publicado um livro com a participação de diversas autoras que estudam a violência contra as mulheres e se debruçaram sobre o sexismo no ambiente acadêmico. O lançamento do livro está previsto para o primeiro semestre de 2021.


“A divulgação e o apoio que Adua SSind dá a essa pesquisa responde ao reconhecimento que temos para revelar a existência desse fenômeno nas universidades públicas do Amazonas e que afeta sobretudo, as mulheres. No entanto, nossa entidade, compreende que será necessária a cobrança às instituições de medidas objetivas de enfrentamento à violência e de mudanças para a garantia de um lugar seguro para todas as mulheres. Logo que o material digital e impresso estejam finalizados, enviaremos tanto a cartilha quanto o livro com a série de artigos desenvolvidos sobre o tema à todos/as sindicalizado/as”, acrescenta Valmiene.


"O que fazer em caso de violência no espaço acadêmico?" Procure ajuda. Registre o caso na instituição. Se não houver espaço adequado e/ou você não se sentir confortável para denunciar a violência na instituição, busque a sua seção sindical e apoio da rede de enfrentamento à violência contra as mulheres.


Fonte: ANDES-SN com informações da Ufam e da Adua SSind.