ANDES-SN 45 anos: o Movimento Negro no Movimento Docente
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Como parte das celebrações dos 45 anos do ANDES-SN, uma série mensal de reportagens resgata a trajetória da categoria e do movimento sindical docente. Neste mês, que marca o Julho das Pretas no Brasil, destacamos a atuação do Sindicato Nacional na pauta antirracista e a participação de docentes negras e negros dentro da entidade.

A história do ANDES-SN, fundado em 19 de fevereiro de 1981, é indissociável da luta pela democratização da universidade e da sociedade brasileira. Ao longo dessas quatro décadas e meia, o sindicato transitou da invisibilidade para a consolidação de uma pauta antirracista estruturante, que incorpora o combate às opressões como parte da defesa da educação pública de qualidade e socialmente referenciada.
Para a professora Jacyara Paiva, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a militância sindical e a antirracista são indissociáveis. “Minha trajetória no movimento docente não começou quando ingressei na universidade. Ela começou muito antes, nos movimentos populares, na defesa dos direitos de crianças e adolescentes em situação de rua, no movimento negro e na compreensão de que educação, justiça social e racial caminham juntas”, afirma.
Trajetória da luta antirracista no Sindicato Nacional
A organização interna da pauta racial no ANDES-SN avançou, especialmente, a partir dos anos 2000, com a institucionalização do combate às opressões no plano de lutas do Sindicato. Um marco foi a criação do Grupo de Trabalho Etnia, Gênero e Classe (GTEGC), em 2007, que depois foi expandido para o atual GT de Política de Classe para as Questões Étnico-Raciais, de Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS). Com o GT, o debate sobre como o racismo estrutura as relações de trabalho e o acesso ao ensino superior passou a ser pautado nos espaços deliberativos da entidade.
Em 2010, no 29º Congresso do ANDES-SN, a categoria docente manifestou posicionamento favorável às cotas como “política transitória para universalização do acesso à educação superior”. Já em 2016, em Cuiabá (MT), durante o 35º Congresso, o sindicato aprovou importantes resoluções relacionadas à questão étnico-racial, que buscavam intensificar a luta contra o racismo, a defesa e a ampliação das ações afirmativas, assim como continuar no engajamento da denúncia do genocídio da juventude negra.
Ainda no mesmo Congresso, importante resolução encaminhou que a Comissão da Verdade do ANDES-SN deveria engajar-se na luta, no registro e na denúncia dos genocídios enfrentados pela população negra, indígena, quilombola, cigana, camponesa, dos sem-teto e dos moradores das periferias. Desde então, o ANDES-SN tem avançado na inclusão, em seu plano de lutas, de ações que combatam o racismo e promovam uma educação e atuação antirracista.
Jacyara Paiva destaca que essa evolução resultou em mudanças na própria composição da diretoria. “Hoje, o ANDES SN tem pela primeira vez um presidente negro à frente da diretoria nacional. Isto não é um dado simbólico, mas é resultado de uma longa caminhada construída por muitas mãos e mentes”, afirma.
Coletivo de Docentes Negras e Negros
A organização de docentes negros e negras no ANDES-SN não foi um processo imediato, mas fruto de uma "reintegração de posse" política e subjetiva, como descrito no artigo “Quilombagem: a organização de docentes negras e negros no ANDES-SN”, publicado na revista Universidade e Sociedade número 78. Conforme o texto, durante décadas, o chamado "Pacto Narcísico da Branquitude" operou sob o manto de uma "unidade de classe" que, na prática, tornava invisíveis as especificidades da população negra na docência.
Em 2018, durante o 37º Congresso do ANDES-SN em Salvador (BA), ocorreu a primeira reunião do Coletivo de Docentes Negras e Negros. O grupo, conforme Jacyara, surgiu por iniciativa das professoras Dalva dos Santos, Rosineide Freitas e Cláudia Durans, motivadas pela baixa representatividade negra nas instâncias deliberativas da entidade. Naquele congresso, dos 500 participantes, menos de 30 eram docentes negros ou negras.
“[o coletivo] Nasceu das ausências, dos silenciamentos e da percepção de que muitas vezes as questões raciais apareciam como temas periféricos, quando, na verdade, estruturam profundamente a sociedade brasileira”, recorda a professora da Ufes.
Desde então, o coletivo — carinhosamente chamado de Quilombo — cresceu significativamente e hoje conta com cerca de 300 integrantes. “O que nos une é a luta antirracista. Somos um coletivo auto-organizado, horizontalizado, sem presidentes, coordenadores ou hierarquias internas. (...) Talvez seja justamente essa horizontalidade que faça tantas pessoas dizerem que, quando chegam ao Quilombo sentem que encontraram um lugar de pertencimento”, explica a docente.
Combatendo o EpistemicídioUm dos grandes embates travados pelo movimento negro é contra o epistemicídio — a deslegitimação e o apagamento de formas de conhecimento produzidas por pessoas negras. Historicamente, a intelectual negra e o intelectual negro foram tratados como "objetos de estudo" e não como sujeitos produtores de teoria.
“O epistemicídio não elimina apenas pessoas; ele elimina formas de produzir conhecimento. Durante séculos, intelectuais negros foram invisibilizados, suas contribuições deslegitimadas e suas experiências tratadas como objeto de estudo, nunca como produção de teoria. Não podemos negar que o pacto da branquitude ainda está em nossas seções sindicais, em nosso sindicato, mas hoje estamos aqui com nossos corpos, nossas existências questionando e denunciando este pacto”, conta Jacyara.
Para ela, o coletivo Quilombo não serve apenas para denunciar o racismo, mas também para "produzir conhecimento, formular políticas, escrever documentos (...) e demonstrar que o pensamento negro sempre fez parte da construção da universidade brasileira".
A docente ressalta que esse combate é urgente diante do cenário de branqueamento da docência. Dados indicam que, em muitos espaços universitários, a representação de mulheres negras é quase inexistente.
Jacyara alerta para o impacto simbólico dessa ausência. “Quando uma jovem negra (...) atravessa toda sua formação sem encontrar uma professora negra, a mensagem transmitida é silenciosa, mas poderosa: aquele lugar talvez não tenha sido pensado para ela”, reflete. Segundo a professora, o sindicato, portanto, assume o papel estratégico de defender ações afirmativas, acompanhar concursos e combater o racismo institucional que adoece e exclui.
Perseguição institucional
A luta antirracista tem gerado retaliações, especialmente contra docentes negras e negros em posições de liderança. Casos de perseguição política e processos administrativos infundados atingiram docentes como Ilzver Matos, impedido de tomar posse na Universidade Federal de Sergipe (UFS); Iguatemi Rangel, que sofreu mudanças casuísticas em editais na Ufes; além de Lorena Pinheiro, Dayse Moura e Leonardo Peixoto, entre outras e outros, como denuncia o artigo da revista Universidade e Sociedade.
O caso da própria Jacyara Paiva, que enfrentou uma tentativa de exoneração na Ufes após sua atuação na defesa de cotas, tornou-se símbolo de resistência. A mobilização “Jacy fica!” demonstrou a importância da resposta sindical. “O racismo institucional produz uma violência muito particular: ele tenta transformar quem denuncia um problema, em algoz, em culpado”, revela.
Para a professora da Ufes, a resposta do sindicato deve ser sempre coletiva, pois "o racismo se alimenta do silêncio". Jacyara aponta a criação de protocolos específicos de enfrentamento ao racismo e a oferta de assistência jurídica especializada como avanços que o ANDES-SN tem buscado consolidar.
“Sou Docente Antirracista”
O combate ao racismo nos marcos do Sindicato Nacional foi reforçado também com a campanha permanente “Sou docente Antirracista”, lançada em julho de 2024. Para Jacyara, a campanha representa uma mudança de paradigma e afirma algo que o movimento negro diz há décadas: “combater o racismo não é responsabilidade exclusiva das pessoas negras.”
A professora lembra que esta campanha nasceu a partir da luta do Coletivo de Negras e Negros e se tornou um marco na construção de uma cultura sindical verdadeiramente antirracista. “Hoje, o ANDES-SN é referência nacional de sindicato que se abre a esta luta”, afirma.
Jacyara destaca que a campanha marca uma mudança de postura ao convocar docentes brancos para a responsabilidade ética do combate ao racismo. Para Jacyara, quando um docente se reconhece antirracista, “passa a questionar currículos, práticas institucionais, presença negra nos espaços de poder, concursos, relações de trabalho e formas de produção do conhecimento”.
Os próximos 45 anos
Entre as lutas para o próximo período no ANDES-SN está a mobilização contra a Instrução Normativa (IN) que prevê o sorteio de vagas para cotas em concursos públicos, medida considerada um retrocesso pelo Sindicato Nacional. Jacyara reforça que o movimento docente deve seguir em luta para garantir condições de permanência e desenvolvimento para docentes e estudantes negras e negros. “Defender ações afirmativas, defender a luta antirracista é defender uma universidade verdadeiramente pública, democrática e socialmente referenciada”, aponta.
Ao olhar para o futuro, Jacyara lembra que o movimento negro no ANDES-SN reafirma que a luta também se faz pela memória, pela cultura e pela celebração da vida. Conforme a docente, os atos nos congressos, repletos de tambores, danças e poesias, são formas de levar para o sindicato tradições de resistência que humanizam a política.
“O Coletivo Quilombo segue sempre em construção, com a chegada de mais docentes negras e negros às universidades públicas, fruto das políticas afirmativas e da luta histórica do movimento negro, nosso quilombo também cresce e ele cresce dentro de uma perspectiva contra colonial de práxis sindical, isto é absurdamente revolucionário”, afirma.
Para as novas gerações de docentes negras e negros que ingressam na carreira, o recado de Jacyara Paiva é de acolhimento e firmeza. “Cada docente negra e cada docente negro que hoje ocupa uma sala de aula (...) carrega consigo a luta de muitas gerações que sonharam com esse momento”, lembra.
Ela convoca todos e todas ao aquilombamento. “Não tentem lutar sozinhos, é preciso se organizar (...) O racismo tenta nos isolar porque sabe que a coletividade é a nossa maior força”, afirma.
A professora da Ufes ressalta que os próximos 45 anos do ANDES-SN dependerão da capacidade de compreender que democracia, universidade pública e justiça racial são projetos inseparáveis, que não competem um com o outro, que não dividem o sindicato, ao contrário, fortalece cada vez mais.
“Quando uma pessoa negra ocupa um espaço e transforma esse espaço para que outras também possam chegar, ela não está apenas construindo uma carreira. Está ampliando os horizontes da democracia brasileira. “Aquilombar é o caminho, o amanhã será nossa insubmissão”, conclui.
Fonte: ANDES-SN
